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terça-feira, 24 de abril de 2018

Eleições 2018: Ciro e Haddad podem formar chapa presidencial


Folha de São Paulo O “polo popular, democrático e progressista”, defendido por Fernando Henrique Cardoso no seu último livro, o recém-lançado “Crise e Reinvenção da Política no Brasil”, deu nesta segunda-feira (23) um passo à frente significativo: Ciro Gomes, Fernando Haddad, Delfim Netto e Luiz Carlos Bresser-Pereira reuniram-se pela manhã. A concordância deles quanto ao que fazer foi completa.

Concordaram, por exemplo, em não convidar Fernando Henrique para o próximo encontro do quarteto, marcado para daqui a um mês. “Converso com todo mundo, mas acho que FHC não quer nada comigo”, disse Ciro Gomes, o último a chegar, às 11h30, e o primeiro a tirar a gravata.

“O apoio do Fernando a João Doria Jr. e o flerte com Luciano Huck mostram que ele não busca criar um ambiente que ajude o Brasil a ir para a frente”, disse Delfim Netto. Nenhum dos quatro acredita que Geraldo Alckmin chegará ao Planalto.

“É a centro-esquerda que tem chances reais”, opinou o ex-prefeito Fernando Haddad. Tanto ele quanto Ciro Gomes acham possível que o PDT e o PT formem uma chapa conjunta já para o primeiro turno, com Haddad como vice.

O responsável pelo encontro, o professor José Márcio Rego, da FGV, lembrou que setores da direção do PT não viram com bons olhos as conversas do ex-prefeito com Ciro. “Já está tudo bem”, informou-lhes Haddad. “Até brinquei com gente do partido, dizendo: vocês diziam que eu era muito técnico, mas quando começo a fazer política, reclamam”.

A incógnita na conversa, que se realizou no escritório de Delfim, no Pacaembu, foi Joaquim Barbosa. “Se ele sair, será a primeira vez que muita gente não votará em branco”, atalhou Delfim com um trocadilho que arrancou risos.

Para ele, Barbosa tem as seguintes virtudes eleitorais: “Veio de baixo, como Lula, foi intransigente contra a corrupção e é um homem direito”. Ele continuou olhando para Ciro: “Ele tem fama de ser mais estourado que você”. Novamente, todos riram. “Não, ele é mais do que eu, melhorei muito”, respondeu o pedetista.

“O problema do Joaquim Barbosa é que não se sabe o que ele pensa sobre economia, qual a sua ideia de Brasil”, disse Bresser-Pereira. “A tendência é que, na economia, ele se limite a repetir a receita liberal de sempre. E disso o Brasil não precisa”.

Pelas informações de que os quatro dispunham, há três empecilhos à candidatura de Barbosa: sua família não quer; setores regionais do PSB não o veem com bons olhos, em função de alianças locais; e o próprio ex-ministro do Supremo não sabe se quer ser candidato.

“Essas dificuldades irão diminuir como que por encanto e logo desaparecerão, se ele crescer nas próximas pesquisas de opinião pública”, disse Ciro, e todos concordaram.

No diagnóstico de Bresser, uma chapa com Ciro e Haddad teria condições de romper com a camisa de força que se quer pôr no eleitorado. “Acho que o Lula preso pode causar tanto barulho eleitoral quanto solto”, disse Delfim.

“Mas há questões práticas”, interrompeu Haddad. “Lula não pode falar, aparecer em vídeos”. Para Ciro, isso não está decidido: “Nessas eleições, a tendência é muita coisa ir parar na Justiça”.

​Bresser disse a Delfim, na frente de todos, que era ótimo que ele participasse das conversas com Ciro e Haddad. “Você é de centro-direita, mas sempre se bateu pelo desenvolvimento. E isto é o importante no momento”. Delfim respondeu que essas classificações estavam defasadas.

Pouco se falou de corrupção. A questão foi resumida por Ciro: “É um dos problemas mais graves do Brasil. Temos que estudar o assunto e apresentar ideias novas”.

Ele lembrou que, quando morava em Brasília, no dia do seu aniversário entregaram um jet ski na sua casa. Era um presente de Léo Pinheiro, dono da empreiteira OAS. Ciro disse que devolveu o presente, e se calou.

“Mas o Ciro não contou o fim da história, que minha mulher vive repetindo”, disse Bresser. “Quando o Léo Pinheiro se encontrou com o Ciro, perguntou-lhe se ele achara que o jet ski era uma tentativa de corrupção. E o Ciro respondeu: ‘Se eu achasse que fora uma tentativa de corrupção, teria mandado prendê-lo’”.

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